Espelho Escuro – A privacidade e as câmeras de celular

Em meados do século XX o escritor britânico George Orwell imaginou um mundo onde um Estado totalitário vigiava continuamente cada um de seus cidadãos. “Big Brother is watching you“[1], alertavam os avisos que não deixavam esquecer que em cada esquina, cada edifício, cada corredor e cômodo havia uma câmera de vídeo a indiscretamente observar. A privacidade não era permitida ao cidadão. Li o romance um ano antes da fatídica data que dá nome ao livro. Lembro que tive a sensação de que esse mundo de plena vigilância seria virtualmente impossível. “As pessoas nunca aceitariam tal invasão de privacidade”, pensava. Com efeito, o mundo do século XXI não é como o imaginado no romance 1984. Embora possamos encontrar alguns lugares onde a realidade pareça imitar a distopia de Orwell, na grande maioria das sociedades a privacidade é vista como um direito individual a ser protegido contra a vontade de controle do Estado.  Mas as câmeras que eram raras na época de George Orwell são hoje onipresentes na vida social. Continuar lendo

Evolução e criacionismo no Brasil

O artigo intitulado “O Conflito Criacionista e Evolucionista no Brasil”, publicado na edição número 126 da revista Scientific American Brasil (novembro 2012), abre com a pergunta: “o avanço obtido pelo conhecimento científico é capaz de modificar as concepções de origem e evolução da vida na sociedade?” São os próprios autores, os pesquisadores Rogério F. de Souza, Sílvia Ponzoni, Cássia Thaïs B. V. Zaia e Dimas A. M. Zaia, que apontam o caminho para a resposta ao apresentarem pesquisas que indicam que a aceitação ou rejeição das teorias para a origem do Universo, da vida e da evolução biológica estão relacionadas com o grau de instrução dos pais, renda familiar, orientação religiosa e compreensão da metodologia científica.

O detalhe do artigo que merece destaque é que Continuar lendo

Um Homem Sério

Ele era um homem acostumado a buscar motivos por trás de cada acontecimento. Para ele, a todo efeito precederia uma causa. Quando falava sobre a natureza, deixava visível o prazer que sentia por conhecer as regras que garantem a causalidade. Provavelmente foi por isso que se tornou professor de Física. A lógica da causa e efeito era uma forma tão eficiente e segura de compreender o mundo, que lhe parecia natural que pudesse se aplicar também às pessoas. A vida familiar, a carreira profissional, o casamento e a vida social deveriam se desenvolver como uma grande cadeia de causas e efeitos, de forma que ter um bom caráter e ser um homem sério deveria resultar em sucesso e felicidade pessoal. Continuar lendo

O choro do androide

Fecho meus olhos, respiro profundamente e sinto meu corpo. Ele é real e percebo que me pertence, que o domino. Mas meu corpo não sou eu. Me dou conta de que quando corto minhas unhas, vejo na pia pedaços de algo que não é mais eu. E a unha que está no meu dedo? É eu ou simplesmente é minha? Sim, por que muitas vezes confundimos o que possuímos com o que somos. Mas está claro para mim: a unha não sou eu. Nem o dedo. Ou o braço. Se fosse cortado fora provavelmente o veria inerte, desumanizado, como vi minha unha. Com a diferença de que me faria muito mais falta. Se eu usasse uma prótese em seu lugar, seria menos humano por não ter um braço natural? E a prótese ligada a meu corpo, seria menos minha que o braço amputado? A prótese não partilharia sangue com o resto do corpo, não me transmitiria sensações, mas passaria a ser parte do corpo, ainda que artificial. E eu continuaria a ser o mesmo.

Então, o que sou? Continuar lendo